Reflexões sobre a realidade
Os hindus e chineses dão a dica quando estabeleceram o milenar conceito filosófico/dialético do Absoluto X Relativo. Os chineses chamaram o Absoluto de Tao e o Relativo de Yin e Yang. Os hindus chamaram o Absoluto de Brahman (e Purusha) e o Relativo de Maya (e Prakriti).
O Absoluto é a Consciência Eterna, incriada, transcedental, não dual e permanente. Os hindus dizem que Brahman é Satchidananda (Consciência, Eternidade e Bem-Aventurança). O Relativo é a dualidade, a impermanência, a identificação da mente/ego com a parte ao invés do Todo.
Isso expressa a ideia fundamental de que nos relacionamos simultaneamente com 2 realidades:
- A realidade que construímos com toda a nossa bagagem cármica, genética, cultural, educacional, nossas crenças e registros do passado. É a autoimagem (quem eu acredito que sou) e a visão de mundo que cada um constrói e mantém;
- A realidade que existe por si, independente das infinitas realidades relativas construídas por cada um. Ela não é a soma das realidades relativas. Ela é simultaneamente imanente e transcendente a elas. A realidade é a própria consciência (que as religiões chamam de Deus).
Exatamente como ocorreu na história dos pais da Física Quântica, quando perceberam que as porções sub-atômicas da matéria se comportavam como partícula ou como onda de acordo com a perspectiva do observador - olhou, é partícula; não olhou, é onda. Isto é, "olhar" é ver a Realidade Una (onda) através da lente da visão de mundo construída por nós com nosso complexo mente/ego/cinco sentidos e seus conceitos, padrões e crenças (partícula).
O Santo, o Iluminado, é aquele que vê as partículas através da perspectiva da onda, enquanto nós ainda estamos vendo as partículas da sua própria perspectiva. No âmbito da vida humana, essas perspectivas, Absoluta e Relativa, também se expressam na forma da nossa simultânea singularidade (somos completamente diferentes uns dos outros; não há quem tenha o mesmo rosto nem a mesma impressão digital) e universalidade (somos todos o mesmo Ser).
A tradução correta para a palavra hindu Maya (que é incorretamente traduzida como "ilusão"), quer dizer "é / não é", ou seja, esta existência, fragmentada e cindida (nos sentimos separados uns dos outros, da Natureza e de Deus), que acessamos com nossos cinco sentidos e com nossa mente racional, simultaneamente existe e não existe.
Sob a perspectiva da relatividade - da visão dual da Vida, da identificação da mente/ego com a realidade fragmentada e mutante das três dimensões e do tempo/espaço, esta realidade concreta e dual obviamente existe, com sua inerente impermanência. Mas sob a perspectiva da Unidade, da Realidade Absoluta - eterna, não dual e permanente - esta vida ilusoriamente dual não existe. Afinal, tudo o que é impermanente não pode ter existência real. E o que é efetivamente e verdadeiramente Real é a Consciência/Amor imanente e transcendente à Criação.
Buda foi chamado de ateu porque jamais falou de Deus e de alma. Ele dizia que o homem é um agregado de ego e mente que constantemente geram carma, fomentando assim a reencarnação (samsara).
Por isso se fala modernamente que o Universo é holográfico (da mesma forma que já se sabe que o cérebro humano funciona holograficamente, não analogicamente), pois cada "parte" sua contém a totalidade.
Levei muito tempo para finalmente "pescar" o insight de que realmente a Consciência não pode ser partida. Nós não temos uma "parte" do Todo. Deus não fica tirando pedaços de Si e colocando em cada corpo humano que Ele cria. Claro, a Consciência, a Alma (atma, como chamam os hindus), é uma só para toda a Criação. Todos compartilham da mesma Consciência. Pense nisso!
Por Ernani Fornari
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