Discípulo de Tales e o primeiro que teve a coragem de escrever as suas idéias em prosa, Anaximandro (610-547 a.C.) vai afirmar, considerando que a água, com suas propriedades determinadas, veio a ser e, como tal, está destinada ao declínio, que o úmido não pode ser a origem das coisas, do contrário, como explicar aconstante existência do devir, o eterno vir-a-ser, o contínuo fluxo de coisas que surgem e, logo em seguida, decaem? A origem de todas as coisas, o ser primordial, o fundo inesgotável do qual tudo procede e ao qual tudo regressa, portanto, não pode ser, tal como as próprias coisas, seja ela a água ou mesmo o ar, como queria Anaxímenes, mortal, transitória, com propriedades determinadas, mas, sim, imortal, eterna e indeterminada: o apeíron.
Deixada de ser um desdobramento ou dissimulação de uma única qualidade existente - no caso, da água - de que maneira, então, o filósofo explicou a multiplicidade? Anaximandro, tortalecendo e multiplicando as observações do mestre, considerou que o próprio úmido se formava a partir do calor e do frio enquanto qualidades ainda mais originais, qualidades essas que não seriam, em si, princípios, mas, sim, próprias a um princípio não-físico, eterno e imortal, e que, ao se separarem, davam início ao vir-a-ser. A saída das coisas do apeironé, assim, uma separação, a partir do todo originalmente unido, dos contrários que lutam neste mundo, como se refere a grande e única máxima de Anaximandro que nos foi transmitida diretamente por ele:
Onde estiver a origem do que é aí também deve estar o seu fim, segundo o decreto do destino. Porque as coisas têm de pagar umas às outras castigo e pena, conforme a sentença do tempo.
Não é que a existência das coisas como tais, a individualização, seria umpecado original, uma sublevação contra o princípio originário eterno, pela qual as criaturas teriam de padecer uma pena, como já se escreveu, desde Nietzsche até Erwin Rhode. Faltava às edições usadas por esses escritores uma palavra (άλλήλοις) que restaurou o texto correto e fez ver que se tratava não de culpa das coisas, idéia estranha aos gregos, mas da compensação da pleonexia - desejo de possuir além do que tem - das coisas. Expliquemos:
Anaximandro figura as coisas como a contenda dos homens num tribunal. Tal como um juiz da cidade jônica retira o excesso tirado por um dos contendores do outro e o dá ao que ficou com pouco, há também uma compensação eterna que se realiza no mundo inteiro, na totalidade dos seres. O que ele afirma, portanto, é que há uma justiça imanente ao próprio acontecer, no qual se realiza para cada caso a compensação das desigualdades. A ordem imanente de justiça submete as coisas da natureza, com todas as suas forças e oposições, e determina, então, sua ascenção e sua decadência. Não é bem uma lei da natureza no sentido moderno, mas uma norma universal através da qual, na medida em que o acontecer natural é concebido como governado pela justiça (diké) eterna, o mundo se revela a Anaximandro como um cosmos, isto é, como uma comunidade jurídica das coisas - descoberta que não se podia fazer senão no fundo da alma humana, por uma faculdade intuitiva, afinal, nada se teria podido fazer com telescópios, observatórios ou qualquer outro tipo de investigação empírica.
Assim, não é que a separação dos contrários constitui a injustiça original da qual surge, então, a multiplicidade, cuja existência seria, portanto, um fenômeno moral, mas que o acontecimento é regido por uma justiça eterna que submete todas as forças e seus contrários. A pluralidade das coisas surgidas não é descrita e explicada por Anaximandro, como se pensou, como uma soma de injustiças a serem expiadas com a morte, o que faz o vir-a-ser ser visto como uma verdadeira maldição e a existência como uma tragédia, mas como uma determinação da justiça imanente ao mundo, o que faz o vir-a-ser ser visto como uma bênção e a existência como uma graça.
A idéia filosófica do cosmos representou uma ruptura com as representações religiosas habituais e também a aparição de uma nova concepção da divindade do ser, no meio do horror da fugacidade e da destruição, que tanto impressionou as novas gerações. A justiça do mundo em Anaximandro recorda que o conceito grego de causa, fundamental para o novo pensamento, coincidia originalmente com o conceito de culpa e foi transferido da imputação jurídica à causalidade física. Dado que Anaximandro se serviu da ordem da existência humana para tirar conclusões a propósito da physis, ainda que nos pensadores jônicos não se encontre uma transposição expressa da ordenação do mundo e da vida do homem para o ser das coisas não humanas, a sua concepção do governo da Diké sobre os acontecimentos é o começo do processo de projeção da polis no universo, contendo em germe, desde o início, a idéia de uma futura e nova harmonia entre o ser eterno e o mundo da vida humana com os seus valores.
O apeíron, bem como as qualidades não-físicas, pode até não ser possível, mas, certamente, foi possível, ao que parece, a existência de um modo de vida não apenas contemplativo, como também livre das opiniões correntes.
Fontes:
- PRÉ-SOCRÁTICOS, Coleção Os Pensadores (NOVA CULTURAL, 1996).
- NIETZSCHE, Friedrich. A Filosofia na Era Trágica dos Gregos (HEDRA, 2008).
- JAEGER, Werner. Paidéia. (Martins Fontes, 2010)
