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sábado, 5 de abril de 2014

ANAXIMANDRO DE MILETO


Discípulo de Tales e o primeiro que teve a coragem de escrever as suas idéias em prosa, Anaximandro (610-547 a.C.) vai afirmar, considerando que a água, com suas propriedades determinadas, veio a ser e, como tal, está destinada ao declínio, que o úmido não pode ser a origem das coisas, do contrário, como explicar aconstante existência do devir, o eterno vir-a-ser, o contínuo fluxo de coisas que surgem e, logo em seguida, decaem? A origem de todas as coisas, o ser primordial, o fundo inesgotável do qual tudo procede e ao qual tudo regressa, portanto, não pode ser, tal como as próprias coisas, seja ela a água ou mesmo o ar, como queria Anaxímenes, mortal, transitória, com propriedades determinadas, mas, sim, imortal, eterna e indeterminada: o apeíron. 

Deixada de ser um desdobramento ou dissimulação de uma única qualidade existente - no caso, da água - de que maneira, então, o filósofo explicou a multiplicidade? Anaximandro, tortalecendo e multiplicando as observações do mestre, considerou que o próprio úmido se formava a partir do calor e do frio enquanto qualidades ainda mais originais, qualidades essas que não seriam, em si, princípios, mas, sim, próprias a um princípio não-físico, eterno e imortal, e que, ao se separarem, davam início ao vir-a-ser. A saída das coisas do apeironé, assim, uma separação, a partir do todo originalmente unido, dos contrários que lutam neste mundo, como se refere a grande e única máxima de Anaximandro que nos foi transmitida diretamente por ele: 


Onde estiver a origem do que é aí também deve estar o seu fim, segundo o decreto do destino. Porque as coisas têm de pagar umas às outras castigo e pena, conforme a sentença do tempo. 



Não é que a existência das coisas como tais, a individualização, seria umpecado original, uma sublevação contra o princípio originário eterno, pela qual as criaturas teriam de padecer uma pena, como já se escreveu, desde Nietzsche até Erwin Rhode. Faltava às edições usadas por esses escritores uma palavra (άλλήλοις) que restaurou o texto correto e fez ver que se tratava não de culpa das coisas, idéia estranha aos gregos, mas da compensação da pleonexia - desejo de possuir além do que tem - das coisas. Expliquemos:



Anaximandro figura as coisas como a contenda dos homens num tribunal. Tal como um juiz da cidade jônica retira o excesso tirado por um dos contendores do outro e o dá ao que ficou com pouco, há também uma compensação eterna que se realiza no mundo inteiro, na totalidade dos seres. O que ele afirma, portanto, é que há uma justiça imanente ao próprio acontecer, no qual se realiza para cada caso a compensação das desigualdades. A ordem imanente de justiça submete as coisas da natureza, com todas as suas forças e oposições, e determina, então, sua ascenção e sua decadência. Não é bem uma lei da natureza no sentido moderno, mas uma norma universal através da qual, na medida em que o acontecer natural é concebido como governado pela justiça (diké) eterna, o mundo se revela a Anaximandro como um cosmos, isto é, como uma comunidade jurídica das coisas - descoberta que não se podia fazer senão no fundo da alma humana, por uma faculdade intuitiva, afinal, nada se teria podido fazer com telescópios, observatórios ou qualquer outro tipo de investigação empírica.



Assim, não é que a separação dos contrários constitui a injustiça original da qual surge, então, a multiplicidade, cuja existência seria, portanto, um fenômeno moral, mas que o acontecimento é regido por uma justiça eterna que submete todas as forças e seus contrários. A pluralidade das coisas surgidas não é descrita e explicada por Anaximandro, como se pensou, como uma soma de injustiças a serem expiadas com a morte, o que faz o vir-a-ser ser visto como uma verdadeira maldição e a existência como uma tragédia, mas como uma determinação da justiça imanente ao mundo, o que faz o vir-a-ser ser visto como uma bênção e a existência como uma graça.



A idéia filosófica do cosmos representou uma ruptura com as representações religiosas habituais e também a aparição de uma nova concepção da divindade do ser, no meio do horror da fugacidade e da destruição, que tanto impressionou as novas gerações. A justiça do mundo em Anaximandro recorda que o conceito grego de causa, fundamental para o novo pensamento, coincidia originalmente com o conceito de culpa e foi transferido da imputação jurídica à causalidade física. Dado que Anaximandro se serviu da ordem da existência humana para tirar conclusões a propósito da physis, ainda que nos pensadores jônicos não se encontre uma transposição expressa da ordenação do mundo e da vida do homem para o ser das coisas não humanas, a sua concepção do governo da Diké sobre os acontecimentos é o começo do processo de projeção da polis no universo, contendo em germe, desde o início, a idéia de uma futura e nova harmonia entre o ser eterno e o mundo da vida humana com os seus valores.



O apeíron, bem como as qualidades não-físicas, pode até não ser possível, mas, certamente, foi possível, ao que parece, a existência de um modo de vida não apenas contemplativo, como também livre das opiniões correntes.

Fontes:
- PRÉ-SOCRÁTICOS, Coleção Os Pensadores (NOVA CULTURAL, 1996).
- NIETZSCHE, Friedrich. A Filosofia na Era Trágica dos Gregos (HEDRA, 2008).
- JAEGER, Werner. Paidéia. (Martins Fontes, 2010)

sábado, 29 de março de 2014

A coruja – símbolo da filosofia








A coruja da filosofia é a Coruja de Minerva. Minerva é uma deusa romana. Seu equivalente grego é Athena. 

A deusa Athena é filha predileta do deus dos deuses, Zeus, e da deusa Metis, cujo nome significa “conselheira”, e que indica a posse de uma sabedoria prática. Athena não nasceu de parto normal. Zeus engoliu a esposa, Metis, para se safar do filho que, pensava ele, poderia destroná-lo, aliás como ele próprio fez com seu pai, Cronos. O nascimento de Athena se dá de um modo especial: após uma grande dor de cabeça, Zeus teve sua fronte aberta por um de seus filhos, e daí espirrou Athena, já forte e grande.
Athena seria a protetora natural de Athenas – uma vez que estava ligada à idéia decuidado com as habilidades manuais, com as artes em geral, com a guerra enquanto capacidade de proteção e, enfim, com a sabedoria, ou seja, tudo que deveria comandar uma cidade.
Todavia, foi desafiada por Poseidon, que também desejava ser o protetor da cidade de Atenas. Os deuses em reunião decretaram que ficaria com a cidade aquele que produzisse algo de mais útil aos mortais. Poseidon fez o cavalo, Athena fez a oliva. A vitória foi concedida a Athena. A disputa clássica na vida de Athena, no entanto, foi contra uma mortal – Arachne, talvez uma princesa, mas que aparece na mitologia como um tipo de doméstica. Arachne tecia muito bem, maravilhosamente, a ponto de dizerem que a própria deusa das habilidades, Athena, a havia ensinado. Mas Arachne negava tal fato e retrucava que poderia produzir uma rede muito superior a qualquer coisa que Athena fizesse. E assim desafiou a deusa.
Athena transformou-se em uma velha e foi procurar Arachne, para aconselhá-la a não desafiar um deus. Mas Arachne ficou furiosa, e manteve seu desafio. E então veio o confronto. Ambas teceram rapidamente, mostrando uma habilidade incrível, e a própria disputa se fez de modo tão fantástico que parecia uma homenagem ao trabalho. No produto de Athena, as figuras tecidas mostravam os deuses, imponentes, mas desgostosos com a presunção dos mortais. No produto de Arachne, as figuras exemplificavam erros dos deuses – tudo em forma de deboche. O resultado foi que Athena não suportou o insulto, e se insurgiu contra Arachne. Quando foi para colocar fim na vida de Arachne sentiu piedade (piedade grega, não cristã, é claro) e a poupou, deixando-a viver como um estranho animal – a aranha.
O mito pode ser lido como tendo o objetivo mostrar a criação da aranha. Mas, como sempre, fornece mais leituras: mostra Athena como compreensiva aos erros humanos: um deus que não fosse Athena não se daria ao luxo de virar uma mortal para, sutilmente, persuadir um outro mortal de não insultá-lo. Assim, com tal característica, Athena era de fato a condutora da cidade de Athenas, que recebeu tal nome por causa dela. Inspirados em Athena, os cidadãos gregos daquela cidade aprenderiam a se comportar diante das leis urbanas, deveriam tomar as melhores decisões, evitar conflitos e se proteger, ordenadamente – inclusive através da guerra – contra inimigos externos.
A imagem de Athena povoou as mentes de alguns filósofos. Platão, ao falar de Athena, a tomou como protetora dos artesãos, ressaltando o caráter da deusa enquanto não somente uma guerreira e conselheira, mas efetivamente como aquela que, desde o momento que deu a oliveira aos mortais, estava preocupada em honrar a sabedoria prática, a habilidade de usar as mãos em articulação com o cérebro. Talvez Marx, ao falar que o pior engenheiro é ainda melhor que a melhor das aranhas, estivesse pensando, de fato, em Arachne. Mas certamente é com Hegel que Athena se imortalizou para nós modernos, finalmente, na sua ligação com a filosofia. É claro que predominou seu nome romano, Minerva. E mais que a própria deusa, a coruja ficou no centro da história.
A frase de Hegel, que diz que a Coruja de Minerva levanta vôo somente ao entardecer, alude ao papel da filosofia. Ou seja, a filosofia só pode dizer algo sobre o mundo, através da linguagem da razão, após os acontecimentos que haviam de acontecer realmente acontecerem. Antes que “prever para prover”, que é um lema de Comte e, portanto, do espírito cientificista, Hegel preferia dar crédito a uma postura filosófica que se via distinta da postura da ciência: a voz da razão explica – racionaliza – a história. Ou seja, depois da história, ela mostra que esta não foi em vão.
Quando dizemos, com William James, que cada filosofia é o temperamento do filósofo que a criou, podemos então caminhar mais um pouco e dizer que Marx e Hegel aparecem como os que melhor encarnaram a própria psicologia de Athena para tecerem suas filosofias. Marx e Hegel, cada um com sua própria psicologia, seus temperamentos, captaram o espírito de Athena para fazerem disso espelhos para suas filosofias. Pois, afinal, Athena detinha com suas duas facetas o espírito de suas filosofias: de um lado, Athena era a protetora de uma democracia de artesãos, de outro, a racionalizadora das decisões urbanas. Portanto, Marx e Hegel, em essência!Mas sabemos que, de fato, o símbolo da filosofia ficou sendo a coruja, não Athena. Poderia ser outro animal, e não a coruja, o mascote de Athena? E como mascote da filosofia, o que indica?
A coruja não é bela. Platão era tido como belo, mas Sócrates não. A coruja não é adepta de uma visão unidirecional, ela gira a cabeça quase que completamente, vendo todos os lados. Platão era adepto de uma visão unificadora, mas Sócrates eraquase um perspectivista. Platão ensinava em uma escola que, muitas vezes, foi oficial. Mas Sócrates ensinava nas ruas. Foi acusado e condenado por seduzir os jovens, por roubá-los da Cidade, da Pólis. A coruja, por sua vez, é a ave de rapinapar excellence, e apanha os descuidados – na noite. Os leva da cidade, para seu ninho. E então, dá para entender, agora, o que é que coruja e filosofia fazem juntas?


(Fonte: blog do Paulo Ghiraldelli)